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ENTREVISTA
APAIXONADA PELA ODONTOLOGIA

....A mulher à frente do mercado de trabalho hoje em dia não parece mais uma novidade, apesar dos percalços que a condição ainda lhe impõe. Mas, isso há cerca de 40 anos, não era tão tranqüilo como é hoje, ainda mais na área de Odontologia que, àquela época, era dominada pelos homens. Porém, Lúcia Alves de Carvalho Piovesan não teve medo. Com determinação enfrentou os preconceitos e foi ser cirurgiã-dentista. É sobre isso e sua paixão pela profissão que ela nos fala na entrevista que segue, concedida ao Papiro.
Papiro – Doutora Lúcia, há quanto tempo está formada? Por que a senhora escolheu cursar Odontologia?

Lúcia Alves de Carvalho Piovesan – No final de 2005 vai fazer 45 anos. Eu me formei em 1960, na USP (Universidade de São Paulo), no campus de Ribeirão Preto (SP). A escolha foi influência de minha mãe, apesar dela não ser cirurgiã-dentista. Nós éramos atendidas pelo dr. João Messias e ele deu a idéia a minha mãe, dizendo que seria a profissão do futuro para a mulher, e olha que em Franca existiam apenas três mulheres atuando como dentistas. Mesmo assim, minha mãe concordou com ele e me repassou a sugestão, que eu acatei, já que queria mesmo fazer algo na área de Saúde.

Papiro – E há quanto tempo a senhora é filiada à APCD?

Lúcia Piovesan – Logo quando sai da faculdade e vim para Franca, a minha primeira providência foi procurar me associar à entidade de minha classe profissional, que naquela ocasião era chamada de Centro Odontológico de Franca. Isso foi um conselho de meu pai que procurei seguir. Ele não era um cirurgião-dentista, era industriário, mas sabia do valor de uma entidade profissional. Assim, eu participava ativamente, ia a todas reuniões, gostava de freqüentar cursos e palestras que eram oferecidos.

Papiro – Sendo assim tão atuante, a senhora fez parte da diretoria da APCD em outra ocasião?

Lúcia Piovesan – Sim. Há anos fiz parte da diretoria e hoje faço parte do Conselho do Presidente. Por muitos anos e por várias gestões fui convidada para cargos semelhantes e podemos dizer que sou uma profissional atuante. Valorizo muito a atuação da nossa entidade de classe e acho importantíssimo participar, dar sugestões para melhorias à Odontologia e as relações de trabalho, entre outras frentes que faço questão de atuar.
Papiro – Acredita que isto está diretamente ligado com o fato da senhora ter sido uma das primeiras cirurgiãs-dentista a abrir seu consultório em Franca, onde existiam poucas mulheres trabalhando?
Hoje, esse panorama se inverteu - Cerca de 60% a 80% do número total de profissionais no Brasil e em todo mundo são mulheres (os dados são resultados do relatório “Saúde Bucal nos EUA: Relatório do Ministro da Saúde”, publicado em 25 de maio de 2000, sendo o primeiro desse tipo sobre o assunto naquele país. As informações foram adaptadas com a autorização do Journal of Dental Education 63(3):271-275, 1999 – Fonte: site www.colgate.com.br). Como a senhora avalia isso, sendo uma peça que participou ativamente desse processo de mudança?
Lúcia Piovesan – Foi uma grande conquista da mulher. Na minha turma de faculdade éramos em quatro mulheres e 90 homens. Isso se inverteu hoje em dia. Acredito que não tive medo de ser uma precursora, talvez impulsionada pela minha paixão pela Odontologia. Depois desses anos todos atuando na área, eu digo sempre que continuo em lua-de-mel com a profissão, que só me trouxe alegrias. Trabalho muito hoje ainda, com o mesmo entusiasmo de uma iniciante de carreira passo o dia todo atendendo em meu consultório. Talvez por isso, meu filho tenha seguido os meus passos e se tornou um cirurgião-dentista.

Papiro – E a senhora nunca sofreu preconceitos ou qualquer tipo de descriminação justamente por ser uma mulher cirurgiã-dentista?

Lúcia Piovesan – No começo de minha carreira tive muitas demonstrações desse tipo. Muitos pacientes homens chegavam ao consultório, pensando que eu era a assistente de um dentista homem. Quando percebiam que era eu quem ia atendê-los, diziam que voltavam depois e nunca mais retornavam. Depois eu comecei a prestar serviços para o Sindicato dos Sapateiros de Franca, atendendo, inclusive, as famílias dos associados e isso ajudou muito a quebrar esse tipo de resistência no meu dia-a-dia de trabalho.

Papiro – A que a senhora acredita que se deve essa transformação de comportamento e o crescimento da participação da mulher na área odontológica?

Lúcia Piovesan – Acho que a Odontologia é uma profissão de detalhes, minuciosa, delicada além de envolver o aspecto psicológico do paciente. Por isso que acho que é uma profissão que tem muita afinidade com a mulher. Mas estas características não são restringentes; o homem também se dá muito bem com nela.

Papiro – Além da inserção da mulher neste mercado de trabalho quais são as outras evoluções que podemos apontar na Odontologia?

Lúcia Piovesan – Esta é uma das profissões que mais cresceram. A tecnologia empregada muda a cada dia e tem influenciado diretamente para sua evolução e para o surgimento de avançadas técnicas de tratamentos de todos os tipos e para todos os fins. Mas a mudança mais radical acredito que tenha sido a social, a de mentalidade. Quando comecei a trabalhar, arrancava-se o dente ao menor sinal de problema e os pacientes mesmos pediam por isso. Era pior ainda em crianças, pois os pais não valorizavam a primeira dentição e pediam para extrair. Hoje isso mudou muito, ninguém mais quer perder dente e querem conservá-los ao máximo. Para mim, a área que mais cresceu e é valorizada na Odontologia é a da prevenção – o esclarecimento da população. A água atualmente é fluoretada, um dos fatores que fez com que a qualidade da saúde oral tenha melhorado tanto. É mais difícil encontrar pessoas com problemas muito sérios, dentes estragados; quando comecei, ter dentes estragados era comum até em crianças bem novas. Isso foi uma conquista da classe, de consultório em consultório fez-se a mudança de mentalidade e de comportamento. Nisso a APCD e outras entidades semelhantes são fundamentais; sem a união da classe isso não seria possível.

Papiro – E depois desses anos todos de trabalho, a senhora pensa em parar?

Lúcia Piovesan – Eu já me aposentei, mas nem imagino ficar sem trabalhar. Eu ainda vou ao consultório todos os dias e trabalho bastante. Não me vejo em uma rotina diferente.
 
 
 
 
 
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