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ENTREVISTA
Entrevistamos Dr. Dahul Tavares Pelizaro, que além de precursor da APCD na cidade, também é uma pessoa com papel muito expressivo na área da Odontologia em Franca.
Idealizador da APCD, Dr. Dahul foi presidente por quatro mandatos e completa agora, 44 anos de carreira.
Está casado há 42 anos e é pai de três filhos, todos cirurgiões dentistas.
È também o fundador da Escola de Prótese que leva seu nome e lançará um livro, ainda este ano, contando a história da odontologia.
Para complementar sua ação profissional ainda ministra aulas no curso de Odontologia da Universidade de Franca.
Ao Papiro Dr. Dahul contou sua trajetória de garoto humilde e o porquê da escolha pela carreira odontológica.
   
Dr. o que o levou a escolher a Odontologia como profissão?
Sou Cirurgião Dentista por vocação, pois nasci na roça, não escovava os dentes e nem penteava os cabelos. Tenho, graças a Deus, bons dentes, herança de família italiana.
Nasci em família humilde. Estudei na escolinha da roça e também no Colégio Champagnat. Depois, em 1959, fui pra Ribeirão Preto cursar Odontologia.
Não sabia nem conhecia a realidade de um consultório. Conheci o boticão na faculdade.
Me formei em 62 e tive a oportunidade de fazer um curso muito bom. Foi uma fase de transição de faculdade particular para se tornar a USP do estado.
Depois de formado me estabeleci em Franca. Trabalhei por cinco anos no grupo escolar de Cristais Paulista e todo esse tempo, sempre participando de cursos, congressos e aperfeiçoamentos.
Fui um dos primeiros a me especializar em Prótese. Coisa muito rara na época.
O Sr. teve alguma influência na escolha da profissão dos seus filhos?
Nunca influenciei nenhum dos meus filhos a seguir minha carreira. Eles escolheram por espontânea vontade mesmo.
Tem até uma história engraçada com meu filho caçula, quando ele ainda era pequeno. Certa vez ele esteve comigo no consultório e coincidiu de todos os clientes que passaram no dia fazerem o pagamento.
No final do dia ele disse que queria trabalhar comigo. Falei que primeiro ele teria que fazer uma faculdade, pois não sabia nada da profissão. Ele disse, “não pai, eu quero trabalhar no caixa”, inocente, achou que era assim que se ganhava muito dinheiro.
Que diferença o Sr. vê em exercer a profissão hoje e há 40 anos atrás?
A grande diferença que eu vejo é no campo econômico. Há 40 anos atrás era bem diferente. Saiamos da faculdade, montávamos um consultório e tínhamos muito trabalho. As pessoas tinham bons empregos e condições de pagar um tratamento adequado.
Hoje, o mundo passa por problemas econômicos. O brasileiro, em especial, enfrenta uma crise de desemprego muito grande. Tiveram épocas em que trabalhávamos com uma lista de espera de 30,40 dias.
A odontologia também mudou muito. Temos mais foco na prevenção. Hoje o dentista ensina a escovar os dentes, a passar o fio dental, enfim, a conservar a saúde bucal.

Fala-se muito em excesso de profissionais no mercado. O que o Sr. pensa sobre isso?
Há 30 anos atrás já se falava em excesso de profissionais e falta de pacientes e eu aprendi com um paciente fazendo esta mesma colocação. Ele me respondeu o seguinte: “Para os bons profissionais sempre terá espaço”.
O que não vale a pena é o profissional ser pescador de final de semana e passar de segunda a terça contando sobre a pescaria. Tem que dedicar a profissão.
Eu, como tantos outros colegas que se dedicaram aos consultórios, nunca tiveram este problema. Diminuiu muito sim, mas dá pra trabalhar.

Qual é o significado da APCD para o Sr.?
A APCD fez parte da minha vida. Ganhei até o título de “Cidadão Francano” em resposta aos trabalhos realizados pela classe durante os oito anos participando da associação.
Coincidentemente fui presidente, mas o mérito é de toda a classe que lutou por todas estas conquistas.
Sempre ajudei um pouco aqui, um pouco ali. Hoje eu não ajudo em nada, aliás, eles que me ajudam com homenagens e outras coisas.
Eu costumo dizer que a APCD foi mais um filho que tivemos. Foi muito trabalho e dedicação. No começo a sede era na minha casa e a secretaria era minha esposa que, aliás, não ganhava nada.
Contei com a grande participação dos colegas na construção da nova sede. Não citarei nomes, pois posso omitir alguém, todos têm méritos e seus nomes estão na placa de inauguração da APCD.
Durante as quatro gestões em que presidi mudava-se a diretoria, mas não mudava o presidente. Eles acreditavam que mantendo o presidente poderiam continuar com o clima e o entusiasmo da construção da sede e da conquista de patrimônio.
Ao mesmo tempo em que construíamos a sede, trabalhávamos na parte cientifica. Fizemos a Semana Odontológica por 32 anos seguidos. Nas Semanas Odontológicas, criadas em 69, reuníamos os profissionais e trazíamos os especialistas e professores para as conferências.
Naquela época eram poucos os especialistas. O estado de São Paulo tinha apenas cinco faculdades, hoje somam 43.
Quando assistíamos palestras fora, trazíamos os professores para colaborar com a gente aqui também. Posso dizer que as maiores autoridades da odontologia estiveram aqui dando cursos e participando de nossos eventos.
Tínhamos até um time de futebol e isso fortaleceu muito o companheirismo entre a classe. Jogamos muito contra sindicatos, bancos, empresas, etc. Fizemos muitas amizades.

Como o Sr. vê a APCD hoje?
Hoje a APCD está muito bem. Muito voltada para a parte científica o que era um grande sonho nosso. A associação tem cumprido seu papel, não só como entidade de classe, mas também como papel social, pois nos cursos ministrados, pessoas carentes se beneficiam dos tratamentos.

E ser professor? Como está sendo esta experiência?
Fui convidado a dar aulas na clínica integrada da Unifran, passando minha experiência de consultório, adquirida em todos esses anos de dedicação a odontologia.
Hoje dou aulas de Odontologia Legal para 4º ano e de Oclusão para 2º ano.
Foi uma ótima oportunidade para rever e recordar matérias.
Ser professor nunca havia me passado pela cabeça, mas quando estudei no Colégio Champagnat eu participei de uma academia literária que existia no colégio.
Eu levei muita vantagem nisso, não só na parte de oratória, mas escrevendo e fazendo discursos. Hoje vejo que foi muito válido. A palavra ajuda muito. Numa classe reunida um bom discurso motiva e entusiasma os alunos.
Posso dizer que ganhei muito sendo professor. Ganhei amigos e admiradores. Tenho ex-alunos que me ligam de Manaus, de Goiânia, do Pará, pedindo orientações ou mesmo para conversar. A faculdade me renovou. Readquiri aquele espírito de estudante. Conviver com os jovens você volta a viver aquele entusiasmo e aquela esperança. E tem a parte da experiência também. Tem muitos estudantes que são carentes de uma palavra de “pai”.


Que mensagem o Sr. deixa para os jovens profissionais?
Procure ser um bom cirurgião dentista. Não se preocupe em ser o melhor, por que o melhor não existe, as marcas são sempre superadas. Existe sim o que realiza um melhor trabalho.
 
 
 
 
 
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